Smarana

Discussões sobre Memória Organizacional em ambientes de desenvolvimento de Software

Estamos formando asnos fundamentalistas?

Desculpem, nobres colegas, por pegar pesado no título do post. Meu intuito é chacoalhar um pouco para ver se a gente acorda para uma realidade extremamente pobre na área de informática. Estamos formando uma legião de arrogantes pessoas que não enxergam nada além da programação no desenvolvimento de soluções e isso só tem causado problemas na forma de conduzir tanto o negócio quanto a engenharia de soluções informatizadas.

Implementar é importante? Claro! Sem essa atividade não há software? Claro! Mas da mesma forma que o motor impulsiona o carro, não é o único componente que o constitui – ignorar o restante é o pior tipo de cegueira que pode existir.

É exatamente isso que estamos fazendo na área de software – pelo menos a maioria de nós. Duas tarefas que vejo altamente negligenciadas são a gestão de projetos e a engenharia de requisitos. Ultimamente a fase de definição da arquitetura está entrando nesse rol, infelizmente.

Parte dessa negligência vem de uma visão nonsence de que programar é uma arte. Não é! É uma ciẽncia! E deveria ser tratada como tal. O fato de a criatividade ter papel em otimização ou melhoria em diversos níveis não torna a atividade uma arte, mas apenas humaniza mais a atividade do programador – uma oportunidade para mostrarmos que não somos robôs porque podemos criar “robôs”.

Outra parte de deve à mais simples arrogância. Achamos que tudo que não é implementação é besteira – “é fácil”, “qualquer um pode fazer”, “manda fulano que não sabe programar” (às vezes até sabe, mas é rotulado como se não soubesse por puro bullying). O resultado disso é óbvio… coisas mal feitas, sem critério ou rigor metodológico. E ao invés de termos um pouco mais de humildade e assumirmos que o erro é essencialmente humano – tanto de colocar a pessoa errada no lugar errado como de considerar rota uma importante atividade complementar ao desenvolvimento e continuidade da solução – preferimos criticar metodologias ou as pessoas que gastaram tempo, esforço e puseram a prova suas experiências para provar à comunidade que a metodologia funciona. Preferimos ignorar a ciência – berço de nossa profissão – e rotular o seu produto de “academicismo” e seus autores de “burros”. Por que? Porque é mais simples ignorar e nos voltar autisticamente (nem sei se existe essa palavra) para a atividade que gostamos de fazer – programar.

Precisamos voltar a formar cientistas. Pessoas que não tem pudor em olhar os problemas de forma objetiva e encarar, quando pertinente, que a origem está em si, na forma como compreende o objeto de seu estudo, e não no objeto per se.

Precisamos parar de pensar que gestão é fácil, que fazer um MBA “nas coxas” de Gestão de Projeto irá criar uma boa prática de gestão.

Precisamos parar de mandar os injeitados para a engenharia de requisitos ou mesmo para gestão de projetos… Aliás, precisamos parar de rejeitar as pessoas. Ao contrário, precisamos acolhê-las e compreender quais seus pontos fortes para melhor que ela produza o maior valor possível.

Precisamos parar de pensar também que as soluções são nossas e fazemos como queremos – alguém diferente de nós, com preferências diferentes, irá manter aquilo no futuro.

Precisamos entender que uma solução não é um projeto. Ela tem um ciclo de vida… ela cresce… e vive por um tempo no qual não há garantias que sua manutenção será feita pelas mesmas pessoas, ou que a memória delas não falhará, ou ainda que a percepção pessoal do contexto garantirá a visão coerente com a realidade imposta ao projeto (e não a elas).

Precisamos de muito! E de tanto precisar, precisamos ser humildes em reconhecer que precisamos de pessoas diferentes, pensamentos diferentes, perfis diferentes, saberes diferentes… nenhum mais valoroso que outro, nenhum descartável, pois são complementares.

Depois desse momento Pedro Bial, voltemos ao foco apenas para lembrar algo… rs

Por muitos anos a atividade de testes passou por esse tenebroso limbo. Hoje há uma revolução que a coloca em outro patamar de relevância. Façamos uma reflexão real sobre nosso comportamento. Não perante implementação ou desenvolvimento de projeto, mas sobre o legado que deixamos em forma de uma solução – um legado que terá longa vida, esperamos, e que gere bons frutos tanto em valor para o cliente como em negócios futuros.

Pensemos também em como reclamamos que a área de TI não é valorizada quando não estamos em um lugar em que ela não é área-fim. Na verdade, esse lance de área-fim virou a maior baboseira. Toda área é área-fim para uma pessoa ou um grupo. Ao negligenciar a área, esquecemos das pessoas, que farão um trabalho cada vez mais medíocre, comprometendo o todo.

Toma bastante cachaça e esquece do seu fígado, ou fuma bastante e esquece do seus pulmões… depois de algum tempo vê como fica saudável sem eles.

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2 comentários em “Estamos formando asnos fundamentalistas?

  1. Marlon
    sábado, fevereiro 12, 2011

    Realmente, já ouvi várias vezes essa conversa de que todo analista de sistemas deveria ter sido programador primeiro. É como se houvesse necessidade de passar por uma hierarquia primeiro, para depois chegar ao topo da cadeia. Esta ideia certamente vem de quem ainda vive apenas de programação. Quando um programador vira analista, percebe imediatamente que sua experiência de programador não faz tanta diferença na condução de um projeto.

    Mas fica aquela sensação em todo mundo que o analista esqueceu deles. Esqueceu como é difícil programar. Já eu acredito que o cara não precisa ter programador primeiro para subir ao topo da cadeia, desde que seja bom para esta atividade. Quem escolhe esse cara é que tem que ter o feeling disto.

    Programar é uma ciência, gerenciar é uma ciência, tudo na área de desenvolvimento é ciência. E vejo que cada uma é multidisciplinar. O programador não pode viver abitolado no seu código e o gerente não pode esquecer a opinião dos programadores. Sei lá. É por aí. 😛

  2. Rodrigo
    sábado, fevereiro 12, 2011

    Concordo plenamente.

    Só acho perversa e incongruente essa idéia de progressão linear. Sou adepto da criação de trilhas de desenvolvimento (ou encarreiramento, como preferirem), onde a pessoa cresceria de acordo com a direção que dá à sua carreira.

    Dessa forma, um implementador nato não precisaria se trair para poder ganhar um salário melhor simplesmente porque um analista de negócio (ou outro perfil) é considerado de nível mais elevado por algum tipo de avaliação obscura.

    Eu acho perfeitamente natural poder existir um implementador ganhando mais que um líder de projeto… por que não? A questão aqui deixa de ser hierárquica, mas reside em níveis de competência e responsabilidades.

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Publicado em sábado, fevereiro 12, 2011 por em Educação em TI.

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