Smarana

Discussões sobre Memória Organizacional em ambientes de desenvolvimento de Software

Qual a [real] função da Universidade

Para entender um pouco mais sobre minha visão acerca da regulamentação, é preciso navegar pelo que aprendi sobre educação formal e profissional.

No início, a Academia servia para formar pensadores e líderes em como melhor compreender ou dominar a natureza das coisas e das pessoas. Nesse sentido, formava “pesquisadores” que iam, em seu contexto de vida, estudando e aplicando novas teorias. A academia não detinha para si, confinando, a execução da pesquisa – o livre pensador teorizava e pensava onde e quando fosse convenientes (ou inconveniente, se pensarmos que a pesquisa surge de um problema, um incômodo). Isso durou muito tempo. E era bom.

Aí veio a revolução industrial e, com ela, o modelo de massificação do pensamento e o confinamento das crianças em salas de aula. Dominava a educação positivista (e ainda impera). O objetivo maior era formar os trabalhadores não-qualificados exigidos para a linha de montagem. A Academia ainda permanecia como centro formador de pensadores e pesquisadores, de inovação. E por um tempo foi bom (ou pelo menos parecia).

A queda cada vez mais veloz da flutuação demandou da Academia uma especialização crescente, criando áreas para tentar promover uma compreensão maior de cada fração analítica do saber. Ainda assim, o mercado exigia a especialização do trabalho, mas não da formação acadêmica.

Em algum momento no meio dessa evolução houve uma mudança radical. Há quem diga que a exigência da formação acadêmica no ambiente de trabalho surgiu em função da necessidade de alta especialização e da mudança de paradigma com a criação de profissões “de conhecimento”. Eu discordo plenamente – acredito que ocorreu um problema de ordem muito mais trivial.

Com a alta especialização das áreas de conhecimento e uma disputa por produção científica, a Academia passou a encerrar em si as atividades de pesquisa. Quem tinha interesse em pesquisa e inovação permanecia associado à Academia enquanto as demais pessoas se viam em um ambiente de trabalho que pensava apenas na produtividade, não cedendo espaço (e tempo) para a gestação de críticas e teorizações. Daí surgiu o apartheid academia x trabalho, que vemos até hoje. As empresas passaram a adotar cegamente as teorias acadêmicas (porque eles sabem o que dizem… só fazem estudar). E por um tempo isso pareceu satisfatório.

Até que um belo dia (ou, mais provável, muitos belos dias), funcionários com espírito de pesquisa começaram a mostrar que a visão crítica e o método científico eram um investimento interessante para o aumento da produtividade das empresas. O que fazer? Ao invés de fomentar a pesquisa dentro das empresas, “importando” capital intelectual pela captação de pessoas-chave vindas da Academia e mantendo com ela uma simbiose para compartilhamento de informações, simplesmente passou-se a considerar que os graduados prestam e os não-graduados não. O problema é que os custos crescem de forma significativa e os ganhos não aumentam na mesma proporção, pois a Academia detém o know-how e os meios para realização de pesquisas. Além disso, a verdade é que a organização não precisa de 100% de pensadores… precisa de muita força de trabalho e coordenação (pouco numerosa) qualificada. E por pouco tempo isso pareceu interessante.

Logo se percebeu que as dezenas de funcionários chegavam conhecendo muita coisa que não era aplicável diretamente na produção. Erraram novamente ao exigir que as Universidades preparassem mão-de-obra. Pressionada pela sociedade (e vendo, talvez, uma oportunidade de ganhar mais força e recursos), a Academia passou a assumir essa responsabilidade. Os custos com mão-de-obra haviam sido elevados e agora se perdia a capacidade de mudança, pela alteração dos currículos para que se adequassem a força de trabalho que outrora era “não-qualificada”. E por um tempo a paz voltou a reinar.

Ora, parece-me óbvio que isso não daria certo e que o próximo passo nessa lógica cega seria exigir pós-graduação (normalmente latu sensu. Desnecessário dizer que foi isso que aconteceu. A graduação passou a fazer o trabalho da escola técnica (e porcamente, pois tenta manter ainda sua veia de pesquisa… e quem tudo quer, nada tem) e a pós-graduação faz as vezes da graduação (também porcamente, pois não há tempo hábil para formar pesquisadores ou pensadores preparados para lidar com o pensamento complexo). Além de não conseguir manter a qualidade na formação pela falta de foco, a Academia não tem condições de prover um currículo que atenda a todas as peculiaridades das organizações – forma, necessariamente, profissionais incompletos. E hoje vivemos o caos e a insatisfação generalizada.

Para mim, essa historinha não tem um final feliz pelas forças que regem o estabelecido. Acredito fortemente que o fortalecimento das escolas técnicas e a regulamentação de profissões, determinando o nível de responsabilidade dos profissionais, seja o melhor caminho (embora de certa forma traumático) para o reestabelecimento da função da universidade como alavancadora da inovação e de avanços sociais, bem como da responsabilidade da empresa em formar sua mão-de-obra.

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Publicado em terça-feira, abril 5, 2011 por em Educação em TI, Regulamentação de TI.

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