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Discussões sobre Memória Organizacional em ambientes de desenvolvimento de Software

Da GC ao comportamento brasileiro – uma crítica

Tenho observado em discussões travadas com colegas da área de Gestão do Conhecimento alguns comportamentos que combinam com uma cultura pseudo-intelectual elitista que percebo nas comunidades laborais e acadêmicas brasileiras.

1. Lei do menor esforço

Um dos grandes problemas da GC é a síntese de definições como a de conhecimento. Ao meu ver, essa síntese deveria ser fundamental para que a área fosse constituída. Para evitar problemas e embaraços, simplesmente evita-se a discussão e segue-se a vida no esquema “minha escola isso, sua escola aquilo”… A questão é que não há grandes escolas de GC! O discurso serve apenas para desviar do embate de ideias. Daí criam-se vários níveis de abstração teórica que muitas vezes se chocam com a própria definição originária de conhecimento.

Como já levantei no blog, é amplamente aceito que conhecimento, na área de GC, existe apenas na cabeça das pessoas. Se assim o é, como diabos eu posso dizer que transfiro para alguém? Existe um elo metafísico ou um wormhole que projeta meu conhecimento em sua cabeça? Óbvio que não! Então o conhecimento depender fundamentalmente da apreensão da visão psicológica e a gestão depende fundamentalmente dessa percepção.

Sendo a pedra fundamental da GC um objeto cuja discussão é evitada, torna-se clara a falseabilidade de toda a suposta teoria construída sobre ela.

Evitar a discussão na teoria levou a evitar uma faceta da prática. Se o conhecimento está na cabeça das pessoas, vamos ignorar e gerenciar a informação… mas aí o termo Gestão do Conhecimento perde toda a sua validade. Ah! Mas é mais bonito, mais imponente. E é isso que acontece atualmente – pouco se faz realmente para gerir o conhecimento e as práticas aplicadas são uma compilação de gerenciamento de treinamentos e gestão documental.

2. Leitura sem qualidade

Não vou discutir os motivos que levam uma pessoa a não ler corretamente um texto. Critico o fato, na verdade, de que as pessoas elaboram respostas e críticas sem ler (ou ler porcamente) o alvo da crítica. Várias vezes eu tenho que recortar o meu próprio texto, transcrever em uma resposta e ainda dizer: “olha lá! tá escrito!”. O pior é que algumas das pessoas são ditas especialistas e ministram aulas sobre o assunto discutido.

Não sabe ler? Não responda! Não entendeu? Pergunte (ou não responda)! Não teve tempo de ler direito? Não responda! Está assoberbado? Não responda! É uma questão de respeito ao outro – que investiu tempo e estudo – e cuidado profissional.

Dessa inabilidade/inépcia surgem teorias inconsistentes – algumas amplamente aceitas. Neste blog há pelo menos um exemplo disso.

3. O Poder Secreto do Título

Não consigo entender como um diabo de um título de especialista, mestre ou doutor é usado como instrumento de poder em discussão. Para mim isso é a maior babaquice. Para mim, quanto “maior” sua titulação, maior deveria ser sua preocupação em explanar coerentemente suas ideias. Ao contrário, o que eu vejo é o pessoal falando “sou professor de XPTO” ou “sou doutor em ABC”, como se isso fosse uma prova de validade de seu argumento. Claro que, se a pessoa estudou mais tempo sobre um determinado assunto, ela teve mais acesso a informações qualificadas, mas também tem (ou deveria ter) mais desenvolvida a capacidade de justificar e produzir um conteúdo mais verossímil – e não usar o “porque eu tô dizendo” como prova de verdade. Chega a ser infantil.

4. Condescendência

Não sei se o termo melhor é esse, mas o inglês patronise cabe como uma luva em outro comportamento que me deixa louco. Você estuda e gasta tempo construindo uma crítica não-ofensiva e fundamentada… aí vem o sujeito e, ao invés de contra-argumentar, manda uma lista de referências (não-obscuras, que uma olhada rápida no google levaria à lista) seguida de um “espero ter ajudado” ou algo do tipo. Para mim isso é uma declaração de incompetência uma tentativa de manter uma aparente superioridade (talvez ligada ao poder secreto do título).

Além de um desabafo, esse texto é um alerta para como lidamos atualmente com a construção científica – com desdém e desrespeito, produzindo falácias como teorias válidas e focado em status mais do que na construção de um mundo melhor. Não é à toa que em muitas áreas o mercado considera a academia um celeiro de criações vazias de valor prático.

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Publicado em segunda-feira, abril 25, 2011 por em Gestão do Conhecimento.

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