Smarana

Discussões sobre Memória Organizacional em ambientes de desenvolvimento de Software

Trabalho não é balneário

Já disse essa frase várias vezes onde trabalhava. O comportamento das pessoas em torno da gestão da dualidade entre trabalho e qualidade de vida é, em parte, a distorção da visão de que se tem que “fazer o que gosta”.

Em primeiro lugar, eu acho que essa sentença é invertida – você deve GOSTAR DO QUE FAZ. Ora, muitas vezes só nos damos conta de nossas preferências após de tornada real a relação nossa com o objeto. No caso do trabalho, sei que não gosto de implementação porque já implementei e só me dei conta de que gosto de pesquisa depois que me envolvi mais aprofundadamente com a atividade. O gostar depende fortemente da sua acomodação com o contexto no qual a atividade está inserida – e isso leva um certo tempo. Então, só se gosta mesmo depois que se faz e, portanto, a ordem da sentença não é apropriada, em minha opinião.

Vende-se cérebro

Mas gostar não é condição necessária para se fazer algo (e bem feito). Se assim fosse, uma parcela muito reduzida da população trabalharia. Precisamos entender a dinâmica econômica do trabalho para perceber isso mais claramente.

Trabalhar é alienar sua força produtiva a uma entidade física (outra pessoa) ou abstrata (comunidade, empresa ou governo), que tem seus próprios interesses. Isso significa que você subordinou suas ações a esses interesses em troca de uma remuneração que garanta maior qualidade de vida no tempo que lhe resta. Assim, não importa se eu não gosto de implementação – devo praticá-la pois é minha função fazê-lo. Mas digamos que eu gostasse… em CLIPPER. Também não faria diferença, pois a determinação do meu contratante é programar, digamos, em Java. A alienação da força não é uma aliança entre contratante e contratado… é, outrossim, uma subordinação dos interesses deste em relação aos daquele.

Mas as coisas não são tão cartesianas. É claro que há uma dinâmica de vontades e poder que acaba por direcionar o interesse do contratante. É um cabo de guerra no qual a influência determina a força de cada elemento participante – aí entram política, interesses particulares, [ab]uso de poder…

No entanto, enquanto não há mudança de direção nos interesses dessa entidade abstrata, o alienado tem o dever de cumprir com suas funções e determinações, goste ou não. O que não quer dizer que ele seja tolhido de livre arbítrio – existe uma grande margem discricionária em suas atividades, onde ele pode exercer sua liberdade. Chorar, espernear ou reclamar de injustiças são atitudes infantis. Só se muda um jogo usando suas próprias regras. Se uma empresa funciona com base em formalismos, é através do formalismo que se pode mudá-la.

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Publicado em quarta-feira, julho 27, 2011 por em Cultura Organizacional.

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