Smarana

Discussões sobre Memória Organizacional em ambientes de desenvolvimento de Software

Cada macaco no seu galho…

… Xô Xuá / Eu não me canso de falar …

A letra da música reflete mais ou menos a minha ladainha sobre a visão que as pessoas não tem sobre a propriedade das coisas e os cortes epistemológicos das teorias. metodologias, arcabouços etc.

Recentemente li uma discussão interminável sobre PMBoK vs Scrum. Longe de insurgir contra qualquer das duas propostas, o que me provocou foi a observação de como as pessoas não possuem a menor ideia de onde acaba um conceito e começa outro. Em discursos, vi gente “descendo a lenha” no PMBoK, por exemplo, por falta de democracia na condução de equipes. Noutros, uma associação tenebrosa entre PMBoK e ciclo em cascata. Essas coisas refletem bem o tipo de ignorância (no sentido de ignorar, de carecer de conhecimento) que paira sobre esses pensadores da área de gestão.

Sobre a democracia, resta claro para mim que nem PMBoK nem Scrum definem a ordem política da comunidade em questão. Pode-se muito bem ter um GP ditador ou democrático – tem mais a ver com cultura. O mesmo pode acontecer com um SM, que pode definir prioridades e backlogs ditatorialmente – não que seja recomendável (mesmo porque a proximidade com o cliente tolhe o espírito maquiavélico de um SM de natureza ditatorial). Estamos falando aqui da natureza das pessoas e da maneira como elas se relacionam. Essa disciplina, no entanto, foge do escopo de projeto (e de seu gerenciamento), sendo objeto de estudo da administração, psicologia, sociologia etc – mas não gerenciamento de projetos. E é exatamente por isso que julgo não ser cabível no PMBoK (que já tem coisa demais).

Claro que há uma relação entre a política e o andamento de um projeto! Nunca neguei. Ao contrário, sempre digo às pessoas para saírem um pouco da zona de conforto e estudarem áreas afins, para melhor compreensão e desempenho de suas tarefas, que não são cartesianas e unidimensionais.

Voltando ao Scrum, essa política tem uma relação intrincada. É preciso compreender melhor o berço para então ver como as coisas são distintas. Ele nasce do manifesto ágil, que, por sua vez, tem como uma base um movimento de empowerment (oriundo da administração) da equipe de desenvolvimento. Dessa forma, quem acredita no ágil, é [via de regra] também crente na divisão de responsabilidades. Mas quem acredita nesse compartilhamento também pode praticar a gestão tradicional, pois, como disse antes, não há vinculação entre política e a disciplina de GP.

Mas empowerment não significa igualdade de responsabilidade. Existe a necessidade de haver um canal, uma pessoa, uma voz, um representante da equipe, um canal “oficial” de comunicação entre a equipe e o mundo exterior (organização ou cliente) – o que não significa cessar ou tolher a comunicação entre as pessoas. Essa pessoa, GP ou SM, tem responsabilidade global pelo andamento do projeto, independente do quanto ele partilhe o poder decisório.

Sobre o ciclo de vida, não tenho nem o que falar. Misturar Engenharia de Software e Gestão de Projetos é o maior câncer que atinge os GP. Quer discutir PMBoK? Fale em ciclo de vida do projeto! Ciclo de desenvolvimento é da cadeira de Engenharia de Software e um conceito completamente diferente. O que o scrum faz é te obrigar a fazer projetos curtos (o que é bom), impedindo-nos de compreender contextos de dimensionamento de escopo (que é, IMHO, péssimo para a formação de bons gerentes).

Por fim, volto a criticar o argumento definitivo: software é diferente. Quem fala isso não leu atentamente os princípios do PMBoK. Ele trata de coisas concretas e abstratas (definido pelo próprio como desenvolvimento), que podem ir de software a campanhas publicitárias, passando por milhares de outros trabalhos essencialmente intelectuais. Um problema grave é que na maioria das vezes começamos a fazer software sem a compreensão do contexto – não sabemos exatamente para quem, para que e por que faremos. Falamos em valor agregado sem ter ideia do valor do que produziremos ou mesmo do valor que o processo que implementamos representará para o nosso cliente. Não entendemos nada sobre escopo e custo, chutamos prazo e dizemos que o PMBoK não presta.

A divisão que as pessoas precisam fazer (e não fazem) é entre nossa ignorância sobre o valor do software e o entendimento do que é um projeto (e consequente aplicabilidade dos conceitos do PMBoK). O fato de não sabermos nenhuma dessas coisas (dimensionamento de escopo, custo e prazo) é o problema central do gerenciamento de projetos – é essa carência de entendimento que difere [aparentemente] o software de outros produtos físicos e intelectuais. Então, quem age sobre essa deficiência consegue enxergar GP como prevista pelo PMBoK como algo realizável e plenamente cabível. E só entendendo é que podemos fazer uma crítica construtiva sobre algo, causando um movimento positivo num processo de evolução/revolução Kantiano – caso contrário, é só um esperneio infantil. E como qualquer birra de criança, um problema só desencadeia uma choradeira sobre todos os males – e logo perde-se o foco.

E meu posicionamento na discussão? 

Quem me conhece sabe que minha percepção é de que esses frameworks são bons, mas extremamente mal executados, que Agile é ótimo, mas reduz-se, de fato, a uma questão cultural, que Scrum é ótimo, mas não passa de uma definição canônica do que já estava posto (iteração, ciclos pequenos…). Para mim, tudo isso convive perfeitamente, desde que você saiba exatamente o que está fazendo.

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Publicado em sexta-feira, novembro 18, 2011 por em Gerenciamento de Projetos.

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